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Dados para organizadores de eventos

Ontologia para Eventos

Seu evento gera dados o tempo todo: inscrições, crachás lidos, estandes vendidos, cotas de patrocínio, leads, pesquisas. Quase sempre eles ficam espalhados em sistemas que não conversam. Este curso ensina a organizar tudo isso num modelo único, que responde as perguntas que mais importam para o negócio: quem vai renovar, quanto valeu para o expositor e onde está o dinheiro deixado na mesa.

Para quem: organizadores e promotores de feiras, congressos e eventos corporativos, e suas equipes comerciais, de marketing e de operaçãoTempo: cerca de 1 horaPré-requisito: nenhum
ObjetoLinkAçãoFunção Essas cores valem para a página inteira.
Antes de começar

O metro quadrado mais caro é o sem dados.

Todo organizador já ouviu de um expositor: "o cliente certo não estava lá". Talvez estivesse. Só não com o crachá que se imaginava. Talvez estivesse fora do radar. Ou talvez nem tenha sido convidado.

Nada substitui o olho no olho, e eventos continuam sendo a maior plataforma de relacionamento do mercado. Mas o que o expositor investe de verdade não é só dinheiro: é tempo. Quando o mercado começa a escolher onde gastar suas horas, ele passa a exigir prova. E prova se faz com dados.

Eventos gigantes também acabam

1979 – 2003COMDEX, Las Vegas

A maior feira de informática dos anos 1990, com cerca de 200 mil visitantes no auge. As grandes empresas foram saindo e a última edição foi em 2003.

1986 – 2018CeBIT, Hannover

Já foi a maior feira de tecnologia do mundo. Depois de anos perdendo público e expositores, foi encerrada em 2018.

até 2020Baselworld, Basileia

A principal feira de relojoaria. As grandes marcas saíram reclamando de custo alto e pouco retorno, e passaram a fazer o próprio evento.

1950 – 2020Photokina, Colônia

Referência mundial em fotografia por 70 anos, suspensa por tempo indeterminado em 2020.

1995 – 2023E3, Los Angeles

A grande vitrine dos games. As editoras passaram a lançar seus jogos em transmissões próprias pela internet, e o evento foi encerrado em 2023.

Cada caso teve vários motivos: mudanças no mercado, custos, a chegada do digital. Mas em todos o ponto em comum é o mesmo. O expositor encontrou um caminho mais rápido, mais segmentado ou mais barato até o mesmo cliente, e o organizador não tinha números para provar o contrário a tempo.

O evento não morre de uma vez. Ele morre primeiro na cabeça de alguns bons clientes, quando eles percebem que encontram os mesmos contatos por outros canais.

Cuidar dos dados do seu evento é a forma de garantir que ele continue existindo. É disso que este curso trata.

A ideia central

O que é, numa frase

A Ontologia é o mapa da empresa em linguagem de negócio: as coisas que existem (substantivos), como elas se ligam, e o que se pode fazer com elas (verbos), tudo conectado aos dados reais.

Pense em como uma empresa guarda informação hoje. Tem uma planilha de expositores, um CRM com contatos, um sistema financeiro com contratos, uma base de credenciamento de visitantes. Cada sistema chama a mesma coisa por um nome diferente, guarda numa tabela diferente, com colunas cifradas tipo cd_cli, id_exp_2, vl_ctr.

Quem quer responder uma pergunta simples ("quais expositores da feira de março ainda não pagaram e já confirmaram estande?") precisa saber onde está cada tabela, como cruzar uma com a outra, e o que cada coluna significa. Isso vive na cabeça de duas ou três pessoas.

A Ontologia resolve isso criando uma camada por cima de todos esses dados onde as coisas têm o nome que o negócio usa: existe um Expositor, existe uma Feira, existe um Contrato. Eles se ligam: um Expositor assina Contratos, um Contrato é de uma Feira. E existem verbos: Reservar estande, Registrar pagamento.

Muita gente chama isso de gêmeo digital do negócio. Para um organizador, é o retrato vivo do evento: cada expositor, cada visitante, cada contrato e cada contrapartida, conectados. Pessoas, aplicativos e agentes de IA passam a trabalhar em cima desse mapa, e não mais em cima de planilhas soltas.

O seu ponto de partida

Os dados que um organizador já tem

Antes de falar de modelo, vale olhar para o que você já coleta. Um evento médio gera dados em pelo menos sete lugares:

Onde estáO que guarda
Inscrição e credenciamentoQuem se inscreveu, categoria, cargo, empresa, valor pago
Controle de acessoQuem entrou de fato, em que dia e horário, por qual portão
App ou leitura de leadsQuais visitantes cada expositor escaneou no estande
CRM comercialNegociação de estandes e cotas, propostas, contatos dos expositores
FinanceiroContratos, parcelas, inadimplência
PesquisasSatisfação e NPS de visitantes e expositores
MarketingBase de e-mails, campanhas, origem de cada inscrição

O problema não é falta de dado. É que a mesma pessoa aparece três vezes, com e-mails diferentes, em três sistemas. A mesma empresa é expositora num sistema, patrocinadora em outro e tem 40 funcionários visitantes num terceiro, e ninguém consegue ver isso junto.

E qualidade de dado aparece no resultado. Num portfólio de feiras B2B que acompanhamos, a taxa de abertura dos e-mails para visitantes e expositores mais que dobrou em quatro anos. Não foi por causa de nenhuma campanha genial: a base ficou mais limpa, sem duplicidades, e mais bem segmentada. Na mesma época, o desempenho variou muito de uma feira para outra dentro do mesmo portfólio, e por isso vale medir evento por evento.

A ontologia resolve exatamente isso: um único Visitante, uma única Empresa, ligados a tudo o que fizeram em todas as edições.

Para que serve

As perguntas que valem dinheiro

Toda boa modelagem começa por perguntas de negócio. Estas são as que mais aparecem para organizadores, e o que o modelo precisa ter para respondê-las:

PerguntaO que o modelo precisa ter
Quais expositores vão renovar para a próxima edição?Contrato por Edição, histórico de renovação e o que cada expositor recebeu (leads, visitas)
Quanto o evento valeu para cada expositor?Lead ligando Expositor a Visitante, com cargo e segmento do visitante
Quantos inscritos não apareceram?Inscrição e Acesso ligados ao mesmo Visitante
Que público cada expositor quer encontrar?Público-alvo no Expositor e perfil (cargo, segmento, porte) no Visitante
Entregamos tudo o que vendemos aos patrocinadores?Cota com suas Contrapartidas, cada uma com prazo e situação
Quais empresas visitam muito e nunca expuseram?Visitante ligado a Empresa, a mesma Empresa que pode virar Expositor

Repare na última linha. Com os dados separados, essa lista de oportunidades comerciais é invisível. Com a ontologia, ela sai com um filtro.

A conta do expositor

A sua feira é competitiva?

Feira competitiva não é a que tem o corredor mais cheio. É a que entrega ao expositor um cliente novo por um custo menor que o de qualquer outro canal. O seu expositor faz essa conta, mesmo sem perceber. Poucas organizadoras fazem.

Veja o funil de um expositor típico de um estande de 75 m² (números de exemplo, na ordem de grandeza que aparece no mercado):

800pessoas passaram pelo estande
80eram clientes em potencial de verdade, sem duplicidades e com o perfil certo
16viraram clientes (20% de conversão)

Se esse expositor investiu R$ 200 mil no evento (estande, montagem, equipe, viagem), cada cliente custou R$ 12.500. Esse é o CAC da feira, o custo de aquisição de cliente. Se o mesmo expositor consegue clientes parecidos por R$ 8 mil com anúncios segmentados ou com uma equipe de pré-vendas, a sua feira perdeu a disputa, mesmo que o corredor estivesse cheio.

E tem um agravante: quando ninguém cuida do perfil do público, a qualificação média do visitante cai a cada edição, e o CAC do expositor sobe junto. Teste no simulador abaixo.

Quanto o expositor paga por cliente em outro canal
Quanto o % com perfil cai a cada ano sem curadoria
Potenciais clientes reais80
Clientes conquistados16
Custo por contato qualificadoR$ 2.500
CAC da feiraR$ 12.500
…
Edição% com perfilCAC da feira

Simulador ilustrativo. Os valores iniciais são exemplos; troque pelos números de um expositor real seu.

O que a ontologia tem a ver com isso

Para fazer essa conta com números de verdade, edição após edição, o seu modelo precisa ter algumas peças. É aqui que a modelagem deixa de ser assunto de TI e vira estratégia:

Indicador de competitividadeDe onde vem no modelo
Qualificação do públicoVisitante com cargo, segmento e porte da Empresa, comparados ao público-alvo de cada Expositor
Contatos qualificados por expositorLead ligando Expositor e Visitante, filtrado pelo perfil
CAC da feiraInvestimento do expositor (no Contrato ou informado por ele) dividido pelos negócios que ele declarar na pesquisa pós-evento
Tendência entre ediçõesTudo isso ligado à Edição, para comparar um ano com o outro
Risco de não renovaçãoriscoDeChurn(expositor) combinando leads, satisfação e histórico

Com isso em mãos, a organizadora muda o que vende. Ela deixa de vender metro quadrado e passa a vender previsibilidade de negócio: "no ano passado, empresas do seu segmento receberam em média tantos contatos com este perfil". Esse é o melhor argumento de renovação que existe.

Duas observações de quem já fez isso na prática. Primeiro, inteligência de dados custa pouco perto do que está em jogo: dividido pelos estandes e visitantes de um evento médio, fica em poucos reais por visitante. Basta um contrato a mais para pagar o investimento muitas vezes. Segundo, isso não amadurece numa edição só: a passagem de "volume de público" para "jornada de relacionamento" costuma levar de dois a três anos. Quem começa depois que os bons expositores já foram embora, começa tarde.

Da tabela ao objeto

Veja a diferença com os próprios olhos

Isto é o mesmo dado visto de duas formas. Alterne entre elas.

tb_ctr_2026.csv (sistema financeiro)

id_ctrcd_clicd_evtnr_estvl_ctrstdt_ass
C-881240221AUR-2026B1448000.0022026-01-19
C-881340517AUR-2026A02112500.0012026-01-22
C-882040221BRV-2026C0751000.0012026-02-03

O que é st = 2? Quem é o cliente 40221? Qual feira é AUR-2026? Para saber, você precisa abrir outras três tabelas e perguntar para alguém.

Repare que o dado não mudou. Continua vindo da mesma tabela do financeiro. O que a Ontologia fez foi dar significado a ele: traduziu códigos, nomeou colunas, ligou com outros dados e pendurou ações. Esse é o trabalho inteiro, repetido para cada coisa importante do negócio.

As peças

Os seis blocos que você vai usar sempre

Toda ontologia operacional é montada com estas peças. Entenda bem cada uma, porque o resto é combinação delas.

1 · Tipo de objeto (object type)

É a definição de uma "coisa" do negócio: Expositor, Feira, Estande, Visitante. Cada tipo de objeto é alimentado por um dataset (uma tabela da sua base de dados), e cada linha dessa tabela vira um objeto. A tabela de expositores com 1.200 linhas vira 1.200 objetos Expositor.

Todo tipo de objeto precisa de uma chave primária (primary key): uma coluna que identifica cada objeto de forma única e que não muda com o tempo, como o CNPJ ou um código interno. E tem um título (title key): a propriedade que aparece como nome do objeto na tela, como a razão social.

Analogia: o tipo de objeto é o molde; cada objeto é uma peça saída do molde.

2 · Propriedade (property)

As características do objeto: nome, CNPJ, segmento, cidade, valor do contrato, data. Cada propriedade vem de uma coluna do dataset, mas com nome legível e tipo definido (texto, número, data, geolocalização, etc.). É aqui que st = 2 vira Situação: Pago.

3 · Tipo de link (link type)

A relação entre dois tipos de objeto. Todo link tem uma cardinalidade, e acertar isso é metade do trabalho de modelagem:

  • Um para um: um Estande tem uma Planta técnica.
  • Um para muitos: uma Feira tem muitos Estandes; cada Estande é de uma Feira só. Implementado com uma chave estrangeira (o Estande guarda o código da feira).
  • Muitos para muitos: um Visitante assiste a várias Palestras; uma Palestra tem vários Visitantes. Precisa de uma tabela de ligação com os pares (visitante, palestra).

Links são o que permite navegar: sair de uma Feira, ver seus Expositores, ver os Contratos deles, ver quais estão atrasados. Sem escrever nenhum cruzamento de tabela.

4 · Tipo de ação (action type)

É aqui que uma ontologia operacional se diferencia de um simples catálogo de dados. Uma ação é uma mudança autorizada no mundo: criar, editar ou apagar objetos e links, de forma controlada. Uma ação tem:

  • Parâmetros: o que a pessoa preenche. Em Reservar estande: qual expositor, qual estande, qual valor.
  • Regras: o que muda quando ela roda. Cria um Contrato, marca o Estande como "reservado", liga os dois ao Expositor.
  • Critérios de envio (submission criteria): as condições para poder executar. "Só se o estande estiver livre." "Só a equipe comercial pode." "Desconto acima de 15% exige gerente."
  • Efeitos colaterais: notificar alguém, chamar um sistema externo (webhook), mandar um e-mail.

Quando uma ação muda um objeto, a edição é gravada pela Ontologia por cima do dado original (writeback). O dataset de origem não é sobrescrito; a Ontologia junta as duas coisas e mostra o estado atual. E fica registrado quem fez, quando e o quê.

5 · Função (function)

Código (TypeScript ou Python) que roda em cima dos objetos. Serve para três coisas:

  • Calcular: "taxa de ocupação da feira" = estandes vendidos ÷ total.
  • Decidir: "qual estande sugerir para este expositor", olhando segmento, tamanho e histórico.
  • Executar lógica complexa dentro de uma ação: quando a regra é complicada demais para configurar com cliques.

6 · Interface

Uma "forma em comum" que vários tipos de objeto compartilham. Expositor, Visitante e Patrocinador são coisas diferentes, mas todos têm nome, e-mail, empresa e telefone. Você cria a interface Contato com essas propriedades, e qualquer aplicativo ou ação que trabalhe com "Contato" funciona com os três. Isso evita construir a mesma tela três vezes.

Conjunto de objetos (object set). Não é um bloco que você define, mas você vai ouvir o termo o tempo todo: é qualquer grupo de objetos resultante de um filtro ou navegação. "Expositores do segmento têxtil com contrato em aberto" é um object set. Aplicativos, análises e IA trabalham passando object sets de um lado para o outro.

Juntando tudo

A ontologia de uma feira, desenhada

Assim fica um modelo simples, mas realista, para uma empresa que organiza feiras. Leia o desenho seguindo as setas.

tem estandes 1:N assina 1:N tem contatos 1:N contrato de ocupa 1:1 tem palestras 1:N via Inscrição inscrita em credencia Feira Expositor Contato(interface) Contrato Estande Palestra Inscrição Visitante Reservar estande Registrar pagamento Credenciar visitante fn: ocupacaoDaFeira()

Quatro decisões desse desenho valem a pena entender, porque são exatamente o tipo de escolha que separa iniciante de especialista:

  1. Contrato é objeto, não propriedade. Dava para colocar "valor contratado" direto no Expositor. Mas um expositor tem contratos em várias feiras, cada um com valor, estande e situação próprios. Quando uma coisa tem vida própria (datas, estados, várias por "dono"), ela vira objeto.
  2. Inscrição existe entre Visitante e Palestra. Um link muitos-para-muitos direto bastaria se você só quisesse saber "quem foi em quê". Mas se você quer guardar quando a pessoa se inscreveu e se ela compareceu, essa informação precisa morar em algum lugar. Ela mora num objeto intermediário.
  3. Evento e Edição são coisas diferentes. No desenho, "Feira" representa uma edição. Se o seu evento se repete, separe o Evento (a marca, que existe há anos) da Edição (2025, 2026). Só assim dá para comparar ano contra ano e medir renovação, que é o indicador mais importante de uma feira.
  4. Contato é interface. Expositor (pela pessoa responsável), Visitante e futuramente Patrocinador implementam Contato. A tela de "enviar comunicado" é construída uma vez só.
O modelo mental

As três camadas

Dá para pensar a ontologia em três camadas. Elas ajudam a entender por que isso é mais que um catálogo de dados.

Semântica

O que existe. Objetos, propriedades e links. É a parte que dá significado ao dado. Responde "quantos expositores do segmento têxtil temos na feira de março?".

Cinética

O que se pode fazer. Ações, regras e integrações com sistemas. É a parte que transforma análise em operação. Você não só vê que o expositor está inadimplente: você clica em Enviar cobrança e a ação acontece, registrada.

Dinâmica

Como decidir. Funções, modelos, simulações e IA usando as duas camadas anteriores. "Se eu abrir mais um pavilhão, quantos estandes vendo a mais?" "Quais expositores têm maior risco de não renovar?" A decisão tomada volta como ação, e o resultado dela vira dado novo. O ciclo se fecha.

Para um organizador, isso fica concreto: o modelo mostra que um expositor recebeu poucos leads (semântica), uma função calcula o risco de ele não renovar (dinâmica), e o comercial dispara a ação Oferecer reposicionamento de estande antes que ele desista (cinética).

Guarde este ciclo, porque ele é a ideia central de uma ontologia operacional: dado → decisão → ação → dado novo, tudo no mesmo lugar. A maioria das ferramentas de dados para em "dado → painel". O painel mostra o problema e a pessoa vai resolver em outro sistema, sem registro.

Por baixo do capô

Como o dado chega até a Ontologia

Entender o caminho evita muita confusão. É sempre assim:

  1. Conexão. A plataforma puxa dados dos sistemas de origem (ERP, CRM, planilhas, bancos) através de conectores. Isso gera datasets brutos.
  2. Transformação. Pipelines limpam e juntam os dados: tiram duplicados, padronizam CNPJ, traduzem códigos. Feito numa ferramenta visual de pipelines ou em código (Python, SQL).
  3. Mapeamento. No editor da ontologia você diz: "este dataset limpo alimenta o tipo de objeto Expositor; esta coluna é a chave primária; esta vira a propriedade Segmento".
  4. Indexação. A plataforma carrega os objetos num armazenamento de objetos, otimizado para busca e navegação rápidas. Quando o dataset atualiza, os objetos atualizam.
  5. Uso e escrita. Aplicativos leem objetos; ações escrevem edições, que ficam guardadas junto com o dado de origem.

Erro clássico de iniciante: mapear a tabela do jeito que ela veio do sistema. Se a tabela bruta tem 80 colunas com nomes cifrados e linhas duplicadas, o tipo de objeto vai herdar tudo isso. A ontologia boa nasce de um dataset já limpo e pensado para ela. O trabalho de pipeline vem antes.

As ferramentas

Quem usa a Ontologia, e para quê

Você não precisa de uma plataforma cara para começar. O raciocínio de modelagem vale para uma planilha bem estruturada, um Airtable ou um banco de dados simples. Mas é bom conhecer as ferramentas que as plataformas maiores oferecem em cima da ontologia, porque elas mostram até onde o modelo pode ir.

DefinirEditor da ontologiaOnde se criam e editam tipos de objeto, propriedades, links, ações e interfaces. É a "prancheta" do modelo.
EncontrarExplorador de objetosBusca e análise livre sobre os objetos. Filtra, agrupa, navega pelos links, salva listas. Para quem quer responder perguntas sem programar.
Ver um objetoFicha do objetoO painel padrão que aparece quando você abre um Expositor, com propriedades, vizinhos e ações.
Construir appsConstrutor de aplicativosMonta aplicativos operacionais sem código, com listas, mapas, gráficos e botões que disparam ações.
AnalisarAnáliseGráficos e cálculos sobre objetos e séries temporais. Para o analista.
Ver o sistemaVisão de grafoMostra como os objetos se conectam e como um efeito se propaga. Útil para cadeias e "o que acontece se".
Ver no espaçoMapaMostra objetos com localização, com camadas e filtros.
Programar foraSDK da ontologiaBibliotecas geradas a partir da ontologia para construir sites e sistemas próprios que leem objetos e disparam ações, com as mesmas permissões.
LógicaFunçõesOnde se escreve o código que calcula, decide ou executa ações complexas.
IAAgentes de IAFluxos e agentes com modelos de linguagem que usam a ontologia como fonte de verdade e como caixa de ferramentas.

Para quem tem time de tecnologia. Um exemplo de como isso tudo se encaixa: com um SDK de ontologia, o código de um sistema externo fica assim. Repare que você fala com Expositores e Contratos, nunca com tabelas.

// Busca expositores têxteis com contrato pendente na feira de março
const pendentes = await client(Expositor)
  .where({ segmento: { $eq: "Têxtil" } })
  .pivotTo("contratos")
  .where({ situacao: { $eq: "Pendente" }, feiraId: { $eq: "AUR-2026" } })
  .fetchPage();

// Dispara a ação, que aplica as regras e permissões definidas na ontologia
await client(registrarPagamento).applyAction({
  contrato: "C-8813",
  valor: 112500,
});

Código ilustrativo. A forma exata dos métodos depende da plataforma e do SDK usados.

Onde a IA entra

Por que a Ontologia virou o assunto da vez

Quando você pede para um modelo de IA "ver quais expositores estão atrasados e mandar cobrança", ele precisa de três coisas que um chat solto não tem:

  1. Saber o que as coisas significam. A IA não sabe que st = 2 é "pago". A ontologia sabe, e entrega isso pronto. Isso reduz muito a chance de a IA inventar ou cruzar dado errado.
  2. Ter ferramentas seguras. Em vez de deixar a IA escrever direto no banco, você dá a ela as mesmas ações que um funcionário tem, com as mesmas regras e permissões. Se o funcionário não pode dar 20% de desconto, a IA também não pode.
  3. Deixar rastro e permitir revisão. Toda ação da IA fica registrada. E dá para configurar que ela só proponha a ação, e uma pessoa aprove (human-in-the-loop).

Por isso a ontologia é vista como a camada que torna a IA utilizável em operação real. O modelo de linguagem é o "cérebro" trocável; a ontologia é o mapa do negócio e o conjunto de mãos autorizadas.

Segurança

Quem vê o quê, e a LGPD

As permissões ficam na própria ontologia e valem em qualquer ferramenta que a use. Elas podem ser definidas em vários níveis:

  • Por tipo de objeto: só o financeiro vê Contratos.
  • Por objeto (linha): o gerente da feira de março só vê os contratos da feira de março.
  • Por propriedade (coluna): o comercial vê o contrato, mas não vê a margem.
  • Por ação: qualquer um credencia visitante; só gerente cancela contrato.

Plataformas mais maduras também usam marcações (markings): etiquetas como "dados pessoais" que acompanham o dado por onde ele passa, inclusive em derivados. Se uma tabela tem CPF marcado, qualquer coisa calculada a partir dela herda a restrição. Isso é essencial para LGPD, especialmente na leitura de leads: o visitante precisa ter consentido em compartilhar seus dados com o expositor, e esse consentimento deve ser uma propriedade registrada, não uma suposição.

Contexto

Outros sentidos de "ontologia"

Para conversar como especialista, você precisa saber que a palavra existe há muito tempo e significa coisas parecidas, mas não iguais:

SentidoO que éDiferença para a ontologia operacional
FilosofiaRamo que estuda "o que existe" e como as coisas se classificam.A origem do nome. A ontologia operacional aplica a ideia a uma empresa.
Web semânticaPadrões como RDF e OWL para descrever conceitos e relações, com foco em interoperabilidade e inferência lógica ("todo X é Y, logo...").A ontologia operacional quase não usa inferência lógica. O foco é operação: dados reais, ações e aplicativos.
Grafo de conhecimentoRede de entidades e relações, usada por buscadores e por IA (ex.: Neo4j, Wikidata).Parecido na parte semântica. A ontologia operacional adiciona ações, permissões e escrita, que um grafo puro normalmente não tem.
Camada semântica de BIMétricas e dimensões padronizadas para relatórios (ex.: dbt Semantic Layer, LookML).Serve para ler e medir. Não tem a camada cinética de agir.

Resumo para guardar: a ontologia deste guia é operacional. Ela existe para pessoas e IA tomarem decisões e agirem, não só para descrever ou medir.

Ofício

Como modelar bem

Esta é a parte que faz alguém virar especialista. A ferramenta se aprende em semanas; modelar bem leva prática. As regras que mais importam:

  1. Comece pelas decisões, não pelas tabelas. Pergunte: que decisões as pessoas tomam toda semana? "Qual estande oferecer", "quem cobrar", "quanto cobrar". Os objetos e ações que essas decisões precisam são a sua ontologia inicial. Tabela que não serve a nenhuma decisão fica de fora.
  2. Use os nomes que o negócio usa. Se o comercial fala "expositor", o objeto se chama Expositor, não Cliente_PJ. O teste: um diretor que nunca viu o sistema entende a tela?
  3. Objeto ou propriedade? Se a coisa tem identidade própria, vários atributos, um ciclo de vida ou pode existir várias vezes para o mesmo "dono", é objeto. Se é só uma característica, é propriedade. Cidade do expositor: propriedade. Contrato do expositor: objeto.
  4. Eventos que importam viram objetos. Visita, pagamento, reclamação, inspeção. Se você vai querer analisar "quantos, quando, por quem", modele como objeto com data.
  5. Estado é propriedade, mudança de estado é ação. "Situação do contrato" é uma propriedade. A passagem de Pendente para Pago acontece por uma ação, nunca por edição solta. Assim você ganha regra e rastro.
  6. Chave primária estável. Nunca use algo que muda (nome, e-mail). Use código interno ou CNPJ. Trocar chave depois quebra links e edições.
  7. Comece pequeno e conectado. Cinco objetos bem ligados que resolvem um caso real valem mais que cinquenta objetos soltos. A ontologia cresce por caso de uso.
  8. Se você tem mais de um evento, a Empresa é do portfólio. A empresa que visita a sua feira de embalagens pode ser expositora em potencial da sua feira de cosméticos. Se cada evento tem a própria base isolada, essa venda cruzada fica invisível. Modele Empresa e Visitante uma vez só, ligados a todos os eventos.
  9. Um conceito, um tipo de objeto. Se três sistemas têm "clientes", não crie três tipos. Junte no pipeline e crie um Expositor só, com a origem como propriedade.
Sua vez

Exercício de modelagem

Leia o cenário e escreva, antes de abrir a resposta, quais objetos, links e ações você criaria.

Cenário. Você organiza um congresso médico anual com área de exposição. Os participantes se inscrevem em categorias (médico, residente, estudante), escolhem sessões científicas e recebem um crachá com QR code. Os expositores usam um aplicativo para escanear o crachá de quem visita o estande. Os patrocinadores compram cotas (Ouro, Prata, Bronze) com contrapartidas: logo no site, sessão patrocinada, e-mail para a base de inscritos. Você quer provar para cada expositor quantos contatos qualificados ele recebeu e garantir que toda contrapartida prometida foi entregue.

Ver uma resposta possível

Objetos: Evento Edição Participante Inscrição Sessão Empresa Expositor Lead Cota Contrapartida

Links: Evento tem Edições (1:N) · Participante faz Inscrições (1:N) · Inscrição é da Edição (N:1) · Inscrição escolhe Sessões (N:N) · Expositor é a Empresa (N:1) · Lead captado por Expositor e de Participante · Empresa compra Cota (1:N) · Cota prevê Contrapartidas (1:N)

Ações: Credenciar participante · Registrar lead · Marcar contrapartida como entregue · Renovar cota

Função: leadsQualificados(expositor), que conta só os leads de médicos da especialidade que o expositor quer atingir.

As decisões que importam:

  • Participante é separado de Inscrição. O mesmo médico vem todo ano. A pessoa é uma só; cada ano gera uma inscrição nova, com categoria e valor daquele ano. É isso que mostra quem é fiel ao congresso.
  • Lead é objeto. É um acontecimento com data, hora e estande, que liga os dois lados do evento. Contado por expositor, é o relatório de resultado que ajuda a vender a renovação.
  • Contrapartida é separada da Cota. Cada contrapartida tem prazo, responsável e situação. Assim a pergunta "o que ainda falta entregar para os patrocinadores Ouro?" vira um filtro.
  • Consentimento é uma propriedade do Lead (ou da Inscrição). Sem ele, o dado não pode ir para o expositor.

Se você chegou perto disso, já está pensando como modelador. Se colocou tudo num objeto só, releia "Objeto ou propriedade?".

Teste

Doze perguntas

Cada uma testa um conceito que aparece no dia a dia. A explicação aparece quando você responde.

0 de 12 respondidas
Daqui em diante

Comece pela sua próxima edição

Ler isto te dá o vocabulário e o modelo mental. Quem domina o assunto é quem já modelou vários eventos e viu o que quebra. O caminho prático para a sua próxima edição:

  1. Escreva as cinco perguntas que o seu evento mais precisa responder. Use a tabela "As perguntas que valem dinheiro" como ponto de partida.
  2. Faça o inventário dos dados. Para cada pergunta: onde está o dado hoje, em que sistema, quem é o responsável.
  3. Escolha o identificador único de pessoa (CPF ou e-mail validado) e de empresa (CNPJ). Este é o passo que mais destrava, porque é ele que junta a mesma pessoa em todos os sistemas.
  4. Desenhe objetos, links e ações no papel e mostre para quem vende, credencia e cobra. Se eles não reconhecem os nomes, o modelo está errado.
  5. Comece simples e rode uma edição inteira. Uma planilha bem estruturada ou um Airtable com as tabelas certas já muda o jogo. Depois da edição, revise o que faltou e o que sobrou.
  6. Aprofunde em modelagem de domínio. O livro Domain-Driven Design, de Eric Evans, trata da mesma habilidade (traduzir o negócio em modelo) sem depender de ferramenta.
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